
Outro dia, numa comemoração na casa de um amigo, ouvi uma moça cantando um pagode recente. Achei parecido com um sambinha do Noel Rosa. Perguntei se ela cantava Palpite infeliz, e ela disse que não conhecia Noel Rosa, nunca tinha ouvido falar. É até compreensível que uma adolescente de 15 anos não conhecesse Noel Rosa. Mas quem compôs a música na qual ela cantarolava, provavelmente deve conhecer. E o compositor na qual ele escutava com 16 anos deve conhecer mais ainda.
Quando ligamos a tv, principalmente dia de domingo, vemos uma verdadeira salada musical. Vai de sertanejo, pagode, forró, funk e até pop rock(?). Programas cheios de mulheres bonitas na fila da frente, porque as feias, que completam a pláteia, são colocadas pra trás. Sempre muito animadas e de sorriso aberto, sabem de cor todas as canções das atrações. Nas festas de peão, milhares de pessoas cantam os maiores sucessos sertanejos da atualidade. E dentro de uma pagodeira não é diferente, que ainda toca os velhos e novos hits, o que “fácil” confundir samba com pagode. O pop rock é o mais lamentável. O grande arauto da liberdade é mutilado e sem referências significativas. Garotos de classe média ganham a primeira bateria, aquela guitarra com cara de velha, aprende três acordes e já monta uma banda com um punhado de letras que uma criança de cinco anos de idade poderia ter escrito.
E assim, vemos o início da primeira década do século XXI como uma das piores de toda a história da música. Sem inspiração, sem vida, sem aquele salvador proposto no post anterior. Por que será? Por falta de criatividade? Preguiça? Falta de talento? Ou o problema está nessa geração que não se aproveita do seu legado musical?
Do nordeste da década de 40, Luiz Gonzada já tocava o seu pé de serra, criando o baião no sertão de Pernambuco. Hoje, dezenas de grupos de forró fazem referência ao sanfoneiro, como a grande inspiração(inspiração onde, de quem?) Na região sudeste, na mesma época de Gonzaga, Tonico e Tinoco faziam suas primeiras apresentações pelo interior de São Paulo com “tristeza do Jeca”. Muitas duplas sertanejas prestam homenagem à Tonico e Tinoco, reconhecendo-os como a maior dupla sertaneja(mas continuam fazendo músicas mela cueca).
O rock no Brasil é um caso complicado. Cenário recheado de figuras até mundialmente idolatradas, como é o caso dos Mutantes. Palco da rebeldia na transição da ditadura para democracia, impulsionada pelo Punk londrino dos Sex Pistols e o americano dos Ramones, nascia Blitz, Heróis da Resistência, Camisa de Vênus, Ira!, Plebe Rude, Legião Urbana, Capital Inicial e Titãs, bandas que floresceram na década de 80 no Brasil. Mas já no início da década de 90, várias delas já não tinham o mesmo gás e algumas finalizaram a carreira. Hoje o que sê vê é um monte de garotos sem atitude, sem verdade, sendo manipulados por produtores musicais altamente comerciais.
Bem, onde quero chegar? Parece complicado, mas é simples. Em um país, onde deu origem a Bossa Nova, com um dos compositores mais aclamados como Tom Jobim, onde um semi analfabeto como o Cartola escreveu: “bate outra vez com esperanças o meu coração...”, a produção musical brasileira nesse início de século é uma lástima. Claro, salvando algumas caras e vozes que aparecem. Mas no geral, é tudo muito previsível, enlatado. Onde estão os cometas? Cadê a essência das novas gerações? Não bebem da fonte dos grandes mestres? Onde vamos parar, meu Deus?
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